Blog Preparador de Goleiros
Mauro Machado
Histórias
O DIÁLOGO INTERNO
Nos 17 anos que atuei como goleiro profissional trabalhei muito e segui sempre a risca uma frase bem conhecida no Brasil: “goleiro é o primeiro a chegar no campo e o último a sair.” Treinava para não falhar, mas era inevitável… num jogo qualquer, passando um bom ou mal momento, cometia algum erro que acabava em gol. As falhas fazem parte da nossa carreira e aprendemos com elas, mas as cobranças pós falha era o que me incomodava mais. Quando regressei ao futebol com 22 anos eu sabía que pra “dar certo na bola” teria que ralar muito. Então ía pro GE Continente de segunda a sábado e treinava em 3 turnos, sendo que o primeiro deles era as 7 da manhã e o último quando ja não podia ver a bola. Nos domingos jogava no Segundo Quadro do Real e em algum outro jogo que pintava na várzea da zona norte da capital Gaúcha. Queria recuperar o tempo perdido, embora mais tarde entenderia que os tempos de vôlei me ajudaram para ser o goleiro que fui. Todo esse trabalho deu resultado quando passei num teste no GE Torrense e assinei pela primeira vez um contrato como atleta profissional. De lá pra cá joguei para públicos pequenos e também para estádios lotados. Fui um goleiro regular com algumas boas atuações e também alguns erros que marcaram minha carreira. Nada fora do normal na vida daqueles que defendem a balisa. Ao longo desses anos sofri com os diálogos internos, essas cobranças comigo mesmo eram tão severas que algumas vezes afetavam minhas atuações. Depois desses erros sempre tentei mostrar uma postura de que estava tudo bem e que tinha controle total da situação colocando “o peito para as balas”, mas por dentro estava destroçado. Dormir então, nem pensar! Sabía que deveria assumir o erro, trabalhar nele e seguir em frente. Nesses maus momentos só contamos com a nossa família e era com eles que me refugiava e buscava apoio. Minha mãe dizia: “Essa foi a vida que tu escolheu meu filho.” Ja o pai era curto e grosso: “Sabes quantas vezes tu ainda vais falhar?” E falhei mesmo! Mas todas as vezes fui resiliente, sacando algo positivo de situações adversas, consegui levantar e seguir adiante fazendo o que mais amava. Depois que pendurei as luvas e passei a preparar goleiros, sabía como se sentiam depois de uma derrota, um erro ou um mal jogo. Fui me preparando não só para ser um treinador com precisão no chute, mas também dominar áreas importantes como a da psicologia, capaz de influenciar diretamente na performance de um atleta. Participei de muitos congressos, tive diversos feedbacks e li o livro Inner Game ( O Jogo Interior). Isso tudo e a experiencia própria me ajudaram bastante para oferecer aos meus pequenos exércitos algumas ferramentas capazes de combater esses pensamentos negativos em seus diálogos internos. Espero ter ajudado meus goleiros a sobrelevar essas situações que as vezes passamos. Só erra quem tá lá… aqui de fora parece fácil, mas quem está ou ja esteve embaixo dos 3 paus sabe que não é. Vida de goleiro.